Um pouco da história do judaísmo
A história do monoteísmo começa com um povo, chamado povo de Israel, judeus, hebreus “aos quais pertencem à adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas, aos quais pertencem os patriarcas, e dos quais descendem o Cristo, segundo a carne, que é acima de tudo, Deus bendito pelos séculos! Amém” (Rm 9,4)
O lugar onde passa essa história
No livro do Gênesis, Deus faz duas promessas a Abraão: a terra e a descendência. A caminhada dos nossos primeiros pais é uma caminhada em busca da terra. Esse lugar antes conhecido como Canaã é chamado na história universal como Palestina. Esse nome vem dos antigos gregos que chamavam esse lugar assim por causa da população costeira, os filistim (filisteus). A administração do império romano chamava a região de Judéia. Conhecido hoje como Estado de Israel o lugar é palco de uma disputa entre judeus e palestinos pela posse da terra.
O povo sofre várias influencias dos povos vizinhos e a maior preocupação do Israel antigo é com a idolatria, “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,3). Os cananeus e outros povos da região praticam normalmente uma religião do tipo sedentário venerando deuses locais da fertilidade chamados de báal (senhor, marido) ou mólok (rei). Ritos de prostituição sagrada e sacrifícios humanos tornaram essas religiões “abomináveis” aos olhos de Israel que não poucas vezes se deixaram levar por esses costumes.
O que diferencia o povo de Israel desses povos semitas é sua religião. Em vez dos deuses locais eles adoram um único Deus, Javé, que caminha com o povo em toda a sua história. Os profetas manifestam a preocupação de que Israel permaneça nesse caminho “Eu sou Javé; não há nenhum outro” (Is 45,18c).
Os patriarcas
A história do povo judeu começa por volta de 1850 antes de Cristo. O livro do Deuteronômio, no capítulo 26,5 diz: “meu pai era um arameu errante”. Esta confissão de fé lida e relida ao longo das gerações recordava ao povo da Bíblia sua origem: Jacó, um arameu errante à procura de terra, que provou do gosto amargo da escravidão no Egito. Essa recordação foi provavelmente à semente de onde nasceu toda a experiência do povo da Bíblia, e que animou gerações e gerações a caminhar com Deus a procura de um lugar onde se afirme a liberdade.
Jacó, também chamado Israel, era descendente de Abraão. Por volta de 1850 antes de Cristo, Abraão sai da Mesopotâmia e vai à procura de um lugar onde possa viver com sua família. A promessa que Deus faz o anima pelo caminho (Gn 12): a terra e a descendência. Essa era grande expectativa de todo o povo seminômade. Um lugar onde pudesse se estabelecer e uma descendência, pois os “filhos são a herança de Javé, é um salário o fruto do ventre” (Sl 127,3).
Abraão e seus descendentes, Isaac e Jacó, são conhecidos como patriarcas, pois foram eles os pais do povo da Bíblia. Abraão foi o pai na fé, aquele que por primeiro acreditou em Deus quando tudo a sua volta parecia impossível.
O Novo Testamento quando faz um elogio a fé dos antepassados não deixa de relembrar os nossos primeiros pais: “Foi pela fé que Abraão respondendo ao chamado, obedeceu e partiu para uma terra que devia receber como herança e partiu sem saber para onde ia. Foi pela fé que residiu como estrangeiro na terra prometida, morando em tendas com Isaac e Jacó, os co-herdeiros da mesma promessa” (Hb 11, 8-9).
A experiência do Êxodo como evento fundamental da fé de Israel
No final do livro das origens (Gênesis) Jacó, com sua família chega ao Egito e passa a morar nessa região. “Chega ao trono do Egito, um novo rei que preocupado com o povo hebreu (os hapirus, como eram conhecidos) os submetem a duros trabalhos” (cf. Ex 1,1ss). A situação fica muito difícil, a opressão torna a vida do povo insustentável, “então Deus ouviu os seus gemidos; Deus lembrou-se de sua aliança com Abraão, Isaac e Jacó. Deus viu os Israelitas e Deus se fez conhecer” (Ex 2,24-25).
Moises é o personagem que Deus escolhe para conduzir o povo à libertação “Javé disse: ‘Eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu grito por cauda dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta... Vai, pois eu te enviarei ao faraó, para fazer subir do Egito o meu povo, os israelitas’” (Ex 3,7-12).
Este movimento de libertação, no entanto, durou um longo tempo. Foi uma caminhada cheia de tropeços, decepções, angústias e medos, em direção a Canaã. São muitos os que caminham e a experiência religiosa de Israel faz Deus caminhar ao seu lado, de dia e de noite. Moisés morre antes de chegar à terra prometida e, Josué o substitui na liderança do povo. Essa experiência passa a constituir a pedra fundamental de toda a fé de Israel, e o eixo de todo o Antigo Testamento.
Um sistema de tribos
Pouco a pouco o povo hebreu vai ocupando a região de Canaã. Os conflitos são inevitáveis. A primeira forma de organização foi em tribos (o livro de Josué narra a entrada do povo em Canaã e a divisão da terra entre tribos). Cada tribo era autônoma e possuía um governo próprio. O que unia as tribos era a fé no mesmo Deus, único, que os libertou da escravidão. Esse governo por vezes era exercido pelos juízes que procuravam por em prática um sistema igualitário, de acordo com as leis que Deus havia dado durante a caminhada pelo deserto (estas leis estão em Êxodo 20,1-21).
A monarquia unida
A experiência em tribos não durou muito tempo. Samuel foi o último dos juízes que levou adiante a organização das tribos sem um rei. Por causa dos ataques constantes de outros povos, em 1030 as tribos do norte e do sul decidiram que deveriam se organizar como as outras nações, tendo à sua frente um rei. Começa então a monarquia, sendo o primeiro rei Saul. O segundo rei foi Davi, considerado o maior rei de Israel. Ele vence as nações vizinhas, aumenta as fronteiras do reino e escolhe Jerusalém como capital. Na época do terceiro rei, Salomão, surge os primeiros escritos da Bíblia, que reuniam as tradições que se transmitiam oralmente de geração em geração.
Com a monarquia aparecem também os profetas, que chamam a atenção dos reis, das autoridades e do povo por causa da aliança que era freqüentemente desrespeitada.
A monarquia dividida
Quando morre o rei Salomão, em 931, as tribos encontram-se numa situação de conflitos políticos. As tribos do norte não querem aceitar o filho de Salomão como rei, e o reino acaba sendo dividido. As tribos do norte formam o reino do Norte, ou Israel, com o rei Jeroboão I. O sul, fiel a Davi e Salomão, formam o reino do Sul, ou Judá, com o rei Roboão.
As dominações e o exílio
Durante toda a história dos reis, Israel e Judá tiveram que lutar contra outros povos para manter a própria terra. Em 722, porém, os assírios invadem o reino do Norte e destroem a capital, Samaria. Acaba, assim, o reino do Norte, e os hebreus que habitavam o reino do Norte são deportados para a Assíria.
Em 586, 150 depois, é a vez do reino do Sul. A Babilônia, havia se tornado um forte império e tinha conquistado a Assíria. Em dois golpes conquista a capital do reino do Sul, Jerusalém, e põe fim ao reino. Boa parte da população é levada para a Babilônia, onde fica por 50 anos. É o tempo conhecido como “exílio”.
A reconstrução sob o poder estrangeiro
Em 539 a Pérsia vence a Babilônia, e o rei persa Ciro permite que o povo judeu volte à terra de onde tinha sido tirado pelos babilônios. Começa então a reconstrução do templo de Jerusalém, mais daí em diante o povo de Deus nunca mais teve liberdade política, pois foi sempre subjugado por nações estrangeiras. A esperança de reconquistar a liberdade, no entanto, nunca morreu, e no meio do povo foi se acendendo sempre mais a esperança de que viesse um novo libertador, um descendente de Davi, um messias (ou seja, alguém ungido como rei) que libertasse o povo judeu do poder estrangeiro.
O bloco do Pentateuco
Durante o exílio da Babilônia, a reflexão religiosa, social e política foram elaboradas a partir dos sacerdotes ligados ao templo de Jerusalém (um exemplo é o profeta Ezequiel). O objetivo dessa reflexão é manter viva a identidade nacional como povo da aliança. O resultado foi: um conjunto de leis rituais e a composição da história das origens (de Israel!) conhecida como Lei, ou Pentateuco.
O primeiro passo é reconhecer que o Pentateuco, como todos os outros livros da Bíblia, é o resultado de uma experiência vivencial do povo que caminha. Só depois de um tempo, é que toda essa experiência vivencial se transformava em Livro. Há toda uma tradição oral, ou seja, uma transmissão de geração em geração dos costumes, das leis, das poesias, do culto e da cultura... Seja por ocasião das festas ou de alguma iniciação ritual.
Em torno da figura de Moisés surge um elemento novo, um código que estabelece regras fundamentais para o povo. São os dez mandamentos, ou decálogo, que se encontram em Ex 20 = Dt 5.
Outras tradições antigas como as canções de Débora (Jz 5) e de Josué (Js 10,13), Miriam (Ex 15,21), os oráculos de Balaão (Nm 22-24). “O livro das guerras de Javé”, do tempo dos Juízes (Nm 21,14) e o “livro do justo” (cf. Js 10,13; 2 Sm 1,18), fazem parte do corpo do Pentateuco.
O Pentateuco é formado de tradições que logo após o exílio recebem a forma de Livro transmitindo uma mensagem sobre a origem do mundo, do homem e do povo.
Antes de David e Salomão existia uma tradição oral e alguns textos escritos: o código da Aliança e o Decálogo (Ex 20-23), por exemplo. Segundo alguns estudiosos o texto dos primeiros livros da Bíblia (Toráh) seria o resultado de 4 “fontes” ou “documentos” conhecidos com o nome de Javista (J), Eloista (E), Sacerdotal (P) e Deuteronomista (D).
Durante o reinado de David-Salomão (séc IX-X) aparece a fonte “Javista”, assim chamada porque chama a Deus com o nome de “Javé”. Os Livros de Samuel surgem neste tempo, com o objetivo de legitimar a monarquia.
Neste tempo começam a ser escritas algumas partes do Livro do Gênesis, do Êxodo, alguns Salmos e nasce a literatura sapiencial.
Com a morte de Salomão o reino divide-se, Israel (ou Reino do Norte) e Judá (ou Reino do Sul). No reino do Norte nasce a tradição “Eloista” (séc IX-VIII), assim chamada porque chama a Deus com o nome de “Eloim”. (Livros dos Reis, Amós, Oseias, Miqueias, Isaías).
Em 722 o Reino do Norte caiu sob o poder da Assíria. Muitos dos habitantes fugiram levando consigo os escritos e as tradições sagrados para o Reino de Judá. Foi assim que as duas tradições, Javista e a Eloista, se uniram. (Jeremias, 2º Isaías).
O Livro do Deuteronômio começou a ser escrito (uma primeira redação) no Reino do Norte, antes da ocupação Assíria (722). Tem como base a renovação litúrgica da Aliança em Siquém (Js 24).
Um século mais tarde foi encontrado no Templo e chamado o «Livro da Aliança» (2Rei 23,3-20). O Rei Josias (640-609), contemporâneo do profeta Jeremias, tentou por em pratica este livro iniciando uma reforma religiosa. A redação final pode ser datada nos séc. V-IV a.C.
Em 587 Nabucodonosor, rei de Babilônia, tomou a cidade santa e deportou muitos dos seus habitantes. Em terra estrangeira os sacerdotes voltaram às antigas tradições, insistindo sobre as celebrações litúrgicas (P).
Conteúdo teológico do Pentateuco
A criação do mundo e do homem (Gn 1-11);
A origem do povo: os patriarcas (Gn 12-50);
Êxodo-Aliança-Lei (Ex-Dt).
Bloco dos Profetas anteriores
A Bíblia Hebraica chama assim, os livros de Js, Jz, Sm e Rs (nós conhecemos esses livros como históricos). É a primeira coleção de profetas:
Séc. XII-XI: Js e Jz;
Séc. XI-X: 1/2 Sm;
Séc. X-VI: 1/2 Reis.
O primeiro período importante para compreender o nascimento da Bíblia estende-se de 1250 até 550 a.C. aproximadamente. É o período do Israel antigo. Essa literatura pressupõe um fato inicial: a libertação das tribos do Egito ou Êxodo.
Esse bloco foi composto por um grupo de escribas que pertenciam a escola teológica que redigiu o livro do Deuteronômio.
Bloco dos profetas posteriores
No que diz respeito à produção literário-profética, podemos dividir os profetas em aqueles que escreveram livros (os escritores) e os que nada deixaram escrito (não-escritores). Os escritores são os quatro maiores e os doze menores. Os não escritores são aqueles que fizeram profecia, mas não escreveram seus oráculos, denuncias e discursos. São eles os mais conhecidos: Samuel, Elias, Eliseu e Natã.
Séc. VIII: Am, Os, Is, Mq;
Séc. VII -VI: Jr, Sf, Na, Hab, Ez, 2º Is, Ab, 3º Is, Ag, 1º Zc;
Séc. V- IV: Ml, Jl, Jn, 2º Zc.
A mensagem de cada um desses profetas varia de acordo com o momento histórico em que viveram e de acordo com os ouvintes de sua pregação.
Embora cada um deles tenha a sua forma própria de anunciar e denunciar (a dupla função do profeta) podemos encontrar duas mensagens fundamentais nesses escritos. A primeira é aquela que exige conversão, onde a exigência principal é que toda a realidade (social, política, econômica, religiosa, etc) seja mudada, a luz da Palavra de Javé, a fim de que não recaia sobre todo o povo o julgamento de Deus. Essa é mensagem central dos profetas que vieram antes do exílio.
A segunda mensagem fundamental é a dos profetas que viveram durante o exílio, na terra da Babilônia, e depois que o povo voltou para a sua pátria. Eles transmitem palavras de esperança, de animo, de encorajamento; incentivam o povo, que tinha perdido sua terra e seus ideais, para que retomem a caminhada da reconstrução e da luta, e recuperem a fé em Deus e a própria cultura. São os profetas da consolação. Os livros proféticos mostram como homens de uma fé profunda e vigorosa em Deus procuram levar o seu povo a um relacionamento renovado e responsável com o Deus que julga e salva.
Bloco do Cronista
Chama-se “historiografia cronista” os livros 1/2 Crônicas e Esdras e Neemias pois possuem as mesmas características teológicas e literárias. A sua redação final situa-se no final do séc. IV aC. os grandes temas teológicos são: o templo, o culto e a raça. Essa historiografia pode ser conhecida como a história do primeiro e segundo templo.
Existe toda uma idealização do rei Davi, de onde se espera uma dinastia duradoura (2 Sm 7,8-13). A releitura cronista se dá no tempo em que toda a vida do povo é dirigida pelos sacerdotes do templo, na observância da lei e na prática do culto.
Recolhe-se uma coleção de textos para uso litúrgico ou para o culto do templo, como também sentenças populares que vai do judaísmo antigo até a época do judeu-helenismo. São eles: Jó, Provérbios, Eclesiastes, Eclesiástico, Sabedoria, Cântico dos Cânticos e os Salmos.
O bloco das novelas
Os dois primeiros (Tobias e Ester) são romances relacionados à diáspora, ou seja, as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo grego. Já o livro de Judite é uma narração alegórica exaltando a resistência do povo judeu na figura de uma mulher.
O bloco da resistência
Esse bloco se refere aos dois livros dos Macabeus. Esses livros exaltam a resistência até o martírio dos judeus piedosos tendo seu maior expoente Judas Macabeu. É também uma historiografia da dinastia dos Macabeus. É também um livro da época helenística.
Por causa da invasão da Palestina a dinastia dos Macabeus assume o comando na cidade organizando a resistência armada. Eles resistem ao domínio dos Selêucidas que querem impor pela força a cultura e religião helenística, instalam no templo um altar a Zeus. Começa por esta época em Israel os martírios. Os irmãos de Judas e a seguir seus descendentes, restabelecem por um momento o reino de Israel.
Na época pós-exílica, nasce um conjunto de textos com o objetivo de atualizar certos temas da Lei e dos Profetas. Esses textos chamamos de Midraxes. O livro de Rute é um exemplo desse gênero literário.
Comentários
Postar um comentário