RELIGIÕES INDÍGENAS - PARTE II

 

 

A IDÉIA DO DEUS TUPÃ - “Muita gente acredita ser Tupã o principal deus das crenças indígenas. (Mas a verdade é outra). Tupã é um ser sobrenatural em que somente os índios que falam língua do tronco Tupi acreditam. Os demais indígenas não conheciam Tupã, pelo menos antes do contato com os homens civilizados.

Mesmo para os índios do tronco Tupi, o ser que denominam Tupã não é considerado de modo nenhum o principal dos entes sobrenaturais. Para eles, Tupã é como um (espírito) que controla o raio e o trovão, podendo, por isso, provocar morte e destruição. Foram os primeiros missionários que, ao ensinarem a doutrina cristã aos índios, na língua destes, procuraram expressar o conceito que os cristãos faziam de Deus com o termo Tupã. O termo foi mal escolhido, uma vez que são completamente discordantes a idéia que os cristãos fazem de Deus e a idéia que os índios fazem de Tupã. Mas o erro dos missionários perdurou e até hoje muitos afirmam que Tupã é a principal divindade indígena.” (Julio Cezar Melatti – Índios do Brasil – Ed. Hucitec).

 

 ALGUNS RITOS DAS TRADIÇÕES INDÍGENAS - Praticamente em todas as culturas e tradições religiosas, o comportamento humano é permeado de rituais. Os rituais são marcos que pontuam momentos importantes na vida das pessoas. Os rituais indígenas não estão separados da vida cotidiana. Há diferentes elementos simbólicos, como danças, cantos, pintura no corpo, adornos, vestimentas de palha e de materiais diversos extraídos da natureza. Os rituais fundamentam toda a realidade e organização da vida social na tribo.

Entre quase todas as comunidades existem os ritos de passagem, que marcam a passagem de um grupo ou indivíduo de uma situação para outra. Esses ritos estão ligados à gestação e ao nascimento, à iniciação na vida adulta, ao casamento, à morte e outras situações.

As festas acontecem na época de abundância de colheita do milho ou da caça e pesca. Há também festas relacionadas aos rituais de iniciação e aos heróis fundadores do povo. Nestas festas, as variadas formas de pintura do corpo, os enfeites com penas, os cantos e as danças têm grande importância.

As cores mais usadas são o vermelho, o preto e o branco, cujas tintas são extraídas do urucum, jenipapo, carvão, barro e calcário.

Conforme a tradição de cada tribo, a música é executada pelos homens e mulheres. Os instrumentos são construídos de madeira, casca de frutas, bambu, entre outros materiais disponíveis para isso.

“Entre os índios da região do Xingu, a morte de um chefe marca o início de um ritual funerário que inclui danças e lutas. Essa cerimônia é conhecida como KUARUP, palavra que significa "tronco de árvore". Em torno de um tronco de árvore acontecem as danças, que vão do anoitecer ao amanhecer do dia seguinte. Os índios acreditam que a alma do morto se liberta do tronco pela manhã. Nesse momento, o principal da cerimônia, eles rolam o tronco para dentro do rio, revivendo a lenda da criação do mundo”.

 

RITO DO NASCIMENTO - Os Tupinambá costumavam celebrar o rito do nascimento de uma criança com uma grande festa. O pai cortava com seus dentes o cordão umbilical, se fosse menino. Se fosse menina, era a mãe. Banhava-se a criança num rio. Em casa era colocada numa rede, colocando-se um arco e flecha, para o menino. Unhas de gavião ou garras de onça enfeitavam a rede para que o menino, quando adulto, se tornasse um valente guerreiro. A menina recebia objetos como uma cabaça, as jarreteiras para as pernas, braceletes de algodão e um colar de dentes de capivara para que crescesse com dentes fortes para bem mastigar a mandioca no preparo da bebida chamada cauim.

 

RITO PARA TORNAR-SE ADULTO - Entre os índios Apinayé, a transformação dos meninos em adultos guerreiros se dá em duas etapas, no decorrer de um ano. Trata-se de um rito de passagem.

Na primeira etapa, os meninos por volta de quinze anos de idade são separados dos demais por meio de uma cerimônia. Passam então a ser chamados de pebkaáb, isto é, “semelhantes a guerreiros”. Daí por diante, durante alguns meses, embora durmam nas casas maternas, os jovens em iniciação passam praticamente os dias separados da aldeia num acampamento próprio, com um local de banho só para eles, um pátio deles a leste da aldeia, um caminho circular em torno da aldeia pelo qual vêm buscar alimento em suas casas maternas. Recebem instruções todos os dias de dois índios experientes. Vem à aldeia somente para dançar a noite e dormir. Durante esse período têm suas orelhas e lábio inferior perfurados para uso de batoques. Depois de algum tempo, são trazidos à vida da aldeia numa cerimônia constituída de ritos de incorporação e então os jovens são chamados de pemb, isto é, “guerreiros”. Nessa segunda etapa ficam numa reclusão rigorosa, em um pequeno quarto totalmente fechado dentro de suas casas maternas. Nessa fase, seus instrutores lhes aconselham sobre como escolher e como tratar a esposa, como tratar seus colegas, como confeccionar seus enfeites e a importância em obedecer a seus chefes.

RITOS DE CASAMENTO – XAVANTE - Entre os Xavante são os pais que tratam da escolha dos cônjuges para os seus filhos. Assim que um grupo de rapazes termina a cerimônia de iniciação, realiza-se uma cerimônia coletiva de casamento. As mães trazem suas filhas, ainda meninas, e as deitam junto a seus noivos, que cobrem as faces com as mãos e estão de costas para elas. As meninas ficam apenas um momento nessa posição, sendo retiradas logo em seguida. Depois são servidos bolos de milho aos convidados, com o milho fornecido pelas casas dos noivos e noivas. O rapaz deve esperar que a noiva cresça para morar com ela. Ao nascer o primeiro filho, passa a morar definitivamente na casa da família da esposa.

 

RITO DE CASAMENTO – DENI - Entre o povo Deni, tribo que vive na Amazônia, o casamento acontece entre primos cruzados, quando possível. O casamento é ajeitado pelas mulheres e dois homens mais velhos da tribo, enquanto que os outros vão para a caça. A rede da moça é desatada e levada ao lado da rede do rapaz. Quando os homens voltam, é dado o aviso de que  os dois estão casados. Logo a mãe da moça traz brasa para ela fazer fogo. Ai tem festa, comida, cantos e os dois podem morar juntos.

 

RITO FUNERÁRIO – KAINGÁNG - Os Kaingáng no Paraná (Palmas) realizam uma cerimônia quando alguém morre, que se constitui um rito de passagem. O pajé recita uma fórmula tradicional ao som do maracá. Três homens levam o cadáver para o cemitério. Toda vez que põem o cadáver no chão para descansar, fazem um sinal numa árvore próxima, até que chegam ao cemitério, onde fazem também o mesmo sinal. Eles acreditam que o morto vive mais uma vida no além-túmulo, depois do que, morre outra vez, transformando-se num mosquito ou formiga. O espírito do morto deve ser afugentado para não oferecer perigo à comunidade, pois, pode trazer doenças. Nos meses seguintes realiza-se um rito com danças, cantos e bebidas para que o morto vá embora.

 

ALGUNS MITOS INDÍGENAS

 

MITO DA CHEGADA DO FOGO - Há muito tempo, um homem Deni foi caçar onça, que era o único bicho mau. De repente, gritou o passarinho bubu ao Deni:

- Tem fogo aí!

O índio assustado, viu em frente uma árvore enorme em chamas. Ao se aproximar, sentiu muito calor. Então pegou uma vara, encostou no fogo e a vara queimou. Rapidamente, levou a brasa para casa e fez fogo.

Os outros índios da aldeia se admiraram e pediram fogo para ele, mas o Deni não concedeu uma brasa sequer. Mandou que eles mesmos buscassem mais fogo na árvore no meio da floresta. Os índios foram ao lugar indicado, mas ali não encontraram mais nada.

Então o índio, que descobriu a brasa, decidiu repartir o fogo. Por isso, os índios Deni não deixam apagar o fogo até hoje.

Os Deni fazem parte dos povos indígenas que ainda sobreviveram na Amazônia. Este povo é formado por vários grupos espalhados às margens dos rios Xeruã e Cuniuá, ambos afluentes do Rio Solimões.

 

MITO DA ORIGEM DOS ÍNDIOS - No começo só havia Mavutsinim.

Ninguém vivia com ele. Não tinha mulher. Não tinha filho, nenhum parente ele tinha. Era só.

Um dia ele fez uma concha virar mulher e casou com ela. Quando o filho nasceu, Mavutsinim perguntou para a esposa:

- É homem ou mulher?

- É homem.

- Vou levar ele comigo. E foi embora.

A mãe do menino chorou e voltou para a aldeia dela. A lagoa virou concha outra vez.

Nós – dizem os índios – somos netos do filho de Mavutsinim.

 

(Villas Boas, Orlando e Villas Boas, Cláudio, Xingu, Os índios, seus netos, R. de Janeiro, Zahar, 1970, p. 55). (Esse mito é dos Kamaiurá, indígenas que vivem atualmente no Norte de Mato Grosso).

Povos Jê

Entre povos da família lingüística Jê, o cosmos é concebido como habitado por diferentes humanidades - a subterrânea, a terrestre, a subaquática e a celeste – que existem desde sempre. O tempo das origens é o da indiferenciação e da desordem, da convivência e da interpenetração daqueles domínios. Astros, como o Sol e a Lua, são gêmeos primordiais que vivem aventuras na terra e aqui deixam o seu legado, antes de partirem para sua morada eterna. Nos mitos Jê, há referências explícitas às atividades de subsistência e às práticas sociais de modo geral. Instituições sociais – a nomeação dos indivíduos, a guerra, o xamanismo... – têm no mito descritas as suas origens e exposta a sua essência.


Povos do Alto Rio Negro

Por contraste, caberia mencionar, a região do alto rio Negro, o noroeste amazônico, morada de povos de língua Tukano. No início dos tempos, antepassados míticos criaram o mundo que, antes, não existia. Das entranhas de uma cobra grande ancestral, que fazia o percurso do rio, saíram, em pontos precisos daquele percurso, os primeiros antepassados de cada um dos vários povos da região, determinando, assim, seus respectivos territórios, suas atribuições específicas e um padrão hierarquizado de relacionamento entre eles.

Em muitas cosmologias, as relações entre humanos e os demais seres são pensadas através da idéia da predação, numa metáfora que simbólica e logicamente aproxima caça, guerra, sexo e comensalidade. Ainda no alto rio Negro, o xamã parece estar encarregado de garantir que fluxos e volumes de energia vital compartilhada por humanos e animais mantenham-se em níveis adequados. Exageros na matança de animais deflagrariam, como contrapartida, epidemias e malefícios entre os homens, provocados por espíritos protetores dos animais. Um equilíbrio vital nas lembranças e o convívio com a idéia da morte são experiências diárias na apreciação e na condução da vida.

Povos Tupi-Guarani

Desde há mais de 500 anos, os não-índios produzem análises na tentativa de compreender as práticas sociais e as concepções cosmológicas dos Tupi-Guarani. Do espanto inicial à sistematização das informações dos cronistas, realizada entre as décadas de 1940 e 1950, passando pela catequese jesuítica e pelos episódios dramáticos da Conquista, é constante a referência central a temas como a guerra, o canibalismo, a vingança da morte através de novas guerras e novas mortes e novas vinganças.

Uma compreensão destes povos, suas sociedades e suas cosmologias, adequada aos tempos recentes de amadurecimento teórico e metodológico da antropologia, revela – apesar da grande diversidade existente entre elas, tanto no plano sociológico, quanto nas variações entre suas cosmovisões respectivas – a centralidade da noção de temporalidade como eixo sobre o qual constroem-se noções fundamentais como a de pessoa e de cosmos. Temporalidade está aliada às relações de alteridade que os Tupi-Guarani buscam sistematicamente situar fora do domínio social propriamente dito, encarnadas nos inimigos, nos espíritos, nos animais, nos mortos e nas divindades.

 

 

 

 



 

 

 

 

 

                 

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