RELIGIÕES INDÍGENAS - PARTE I
ESTRUTURA DAS RELIGIÕES
INDÍGENAS
A
estrutura das religiões indígenas não faz uma distinção entre o mundo natural e
sobrenatural, físico e metafísico. A harmonia deste com a Mãe Terra é condição
básica para sua sobrevivência e é, portanto, elemento inseparável de seus ritos
e encontro com a transcendência.
RELIGIÕES MARCADAS PELA
PRATICIDADE
As
religiões indígenas caracterizam-se pela praticidade, tudo gira em torno da
experiência do sagrado. O cotidiano da vida está impregnado de religiosidade. A
vida na aldeia é vivida de modo contextualizado, a religião é parte integrante
da vida.
RELIGIÕES DIFERENTES ENTRE SI
As
tradições religiosas indígenas são diferentes entre si, há uma diversidade de
povos e culturas que se distinguem no tipo biológico, línguas, costumes, ritos,
organização social, etc. Suas religiões são profundamente marcadas por rituais
nos quais os mitos são revividos com intensidade de modo que em algumas
comunidades os participantes no ato ritualístico sentem-se parte da divindade.
As práticas religiosas caracterizam-se de ritos de defumação, entoação de
cantos, uso de instrumentos musicais, incorporação, transe e uso de remédios
retirados das plantas e ervas.
A IDÉIA E A REPRESENTAÇÃO
DO TRANSCENDENTE
O Tanscendente (Deus) em algumas tribos é
compreendido como um ser natural, bondoso, que gosta de todos e que está em paz
com todos os seres. Algumas nações acreditam no Transcendente como um Ser
Superior e em seres menores, seus auxiliares.
Há
também religiões que acreditam num mundo espiritual povoado de divindades
(espíritos), sem uma hierarquia definida entre eles. São os espíritos dos
ancestrais, os espíritos das florestas, das ervas medicinais, entre outros.
Os
espíritos maus devem ser apaziguados e os bons devem ser convencidos a
ajudá-los. Os nomes dados à divindade superior e aos espíritos variam de uma
nação para outra: Maíra, Itukoóviti (aquele que criou todas as coisas),
Nhyanderú, Nhyanderuvusú, Nhyanderupapá, etc.
Entretanto,
a maioria das tribos dá mais atenção às mitologias de heróis míticos,
caracterizados como heróis civilizadores, que ensinaram técnicas, costumes,
ritos e as regras sociais aos membros da tribo. Em algumas tribos o sol ou a
névoa que cobre as florestas à tardinha ou de manhã é considerado como o
reflexo e a representação ou manifestação do Ser Supremo ou das divindades.
Contudo, cada nação concebe o Transcendente e o representa de forma diversa.
SABEDORIA DOS ANTEPASSADOS
A
sabedoria dos antepassados é preservada através da oralidade. Honrar os
ancestrais constitui-se o centro da ética religiosa indígena.
SACERDOTES-MÉDICOS
Os mediadores entre os espíritos e membros da
comunidade são os xamãs, também chamados pajés, os quais exercem a função de
sacerdotes e médicos. Para ser Pajé ou Xamã, a pessoa precisa passar por uma
experiência psicológica transformadora que a leve inteiramente para dentro de
si mesma. O inconsciente inteiro se abre e o Pajé mergulha nele.
Certas
vezes, esse homem - ou mulher - dotado de autoridade religiosa, ingere
substâncias alucinógenas, com o intuito de, em rituais, atingir estados
alterados de consciência, entrando assim em contato com entidades do mundo
espiritual. Neste caso, os espíritos malévolos serão controlados e combatidos e
os bons serão convencidos a ajudar.
A IMPORTÂNCIA DO RITO
O
rito fundamenta toda a realidade, define a organização da vida social e é fonte
de memória e conhecimento. Há rituais para celebrar o fim das estações da chuva
ou seca, outros para comemorar a chegada das colheitas; há rituais de casamento
e vitórias em guerras com outras tribos.
Revestem-se
de grande importância para as famílias os rituais de iniciação ou passagem para
a vida adulta dos jovens e também o nascimento de crianças. Os rituais estão
ligados aos mitos. O ritual e o mito atualizam o passado e ajudam a modificar e
compreender o presente.
TEXTO SAGRADO
O
texto sagrado é transmitido na forma oral. São histórias míticas que os sábios
anciões contam oralmente para toda a tribo, preservando assim a sabedoria e a
tradição.
Os
mitos falam geralmente da origem e transformação do universo, da vida, das
outras nações indígenas, dos fenômenos de ordem espiritual ou sobrenatural que
acontecem com as pessoas na aldeia. Contam como os homens aprenderam a cultivar
a terra, a fabricar os instrumentos, qual a posição de sua sociedade tribal em
relação às outras, quem instituiu as suas regras sociais e ritos religiosos, o
que acontece com as pessoas depois da morte, etc. Atualmente, porém, algumas
comunidades indígenas utilizam a escrita.
VIDA ALÉM MORTE
De
modo geral, nas diversas nações indígenas, acredita-se que cada pessoa possui
um espírito imortal. A idéia de espírito difere de um grupo para outro. Há
comunidades como os Krahó, ramo dos Timbíra, que acreditam que não somente os
seres humanos possuem espírito, mas todos os seres sejam animais, vegetais ou
minerais.
Alguns
dividem a alma em duas forças, uma das quais permanece na terra em situação de
perigo para os seres vivos e outra parte vai para o paraíso.
Os
Kaingáng acreditam que o indivíduo, após a morte, torna-se outra vez jovem,
vivendo mais uma vida em outro plano existencial. Morre novamente,
transformando-se num pequeno inseto, formiga preta ou mosquito.
Os
Kayová acreditam que o espírito ou alma tem uma parte sublime, de origem
celeste e outra parte menos boa da alma que se desenvolve durante a existência
do indivíduo. Para essa tribo, a reencarnação só é possível para as almas das
crianças que morreram.
De
modo geral, predomina a crença de que a morte é o corte abrupto da vida e
início de outra vida repleta de alegrias.
SISTEMA
DE EDUCAÇÃO
Não há uma sistematização
de educação semelhante a dos povos das cidades. A educação acontece também de
uma forma sistematizada, mas dentro de períodos, de ciclos, marcados por
rituais e cerimônias. As crianças são cercadas de carinho, cuidados e proteção, não só dos pais, mas de toda a tribo. São filhos de todos.
SISTEMA SOCIAL INTEGRADO À NATUREZA
Natureza
e sociedade são partes de um sistema social único. O homem é parte da natureza
como a natureza é parte do homem.
RELAÇÃO COM A TERRA, UMA QUESTÃO RELIGIOSA
A
terra é de todos, é a propriedade coletiva. A relação com
a terra passa pela questão religiosa. A terra é o espaço de vida, lugar para se
viver bem, ela é chamada de “Mãe Terra”. O índio sente-se acolhido pela Mãe
Terra. Ao contrário daqueles que vê a terra como meio de produção e exploração,
visando apenas o lucro pessoal e egoístico, o índio estabelece um
relacionamento de afeto com a Terra, vendo nela uma mãe, que o acolhe
generosamente. Assim, a relação com a Terra passa pela questão religiosa. Deus,
“o Grande Espírito”, “o Grande Pai” ou “o Grande Avô” ordena e orienta para que
se trate bem a natureza por que a vida de todos na comunidade depende dela.
VISÃO ORGÂNICA OU SISTÊMICA
DE MUNDO
Predomina
entre os indígenas uma visão orgânica ou sistêmica de mundo. Tudo está em
harmonia. Os elementos da natureza, os astros, todos os seres foram colocados e
organizados harmoniosamente. Originalmente o índio vivia de forma integrada à natureza, ele tinha consciência de sua relação
de interdependência com os
elementos naturais. Percebia o equilíbrio e a harmonia no cosmo e essa paz
devia ser vivida na aldeia ou comunidade, por meio da partilha e solidariedade.
ORGANIZAÇÃO DA VIDA SOCIAL
O
modo de vida numa aldeia indígena é bastante diferente da vida dos povos que
vivem nas vilas e grandes cidades. A aldeia é como se fosse uma grande família,
onde os homens e as mulheres têm funções definidas. Todos cuidam das crianças,
protegendo-as e ensinando os costumes da tribo. Os alimentos vindos da caça, da
pesca, da coleta e da agricultura são repartidos entre todos. Os direitos são
iguais para todos, como casa, alimento, educação e medicina de ervas dos Pajés.
Os idosos não são desprezados e nem abandonados, mas tratados com carinho e
respeito.
SONHO, CRENÇA OU UMA POSSIBILIDADE? “TERRA SEM MALES”
Algumas
nações indígenas acreditam na “Terra sem males”, onde não haverá maldade,
injustiça, guerra e doença. Onde todos os seres viverão felizes, em plena
harmonia e paz.
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